quarta-feira , 16 outubro 2019
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Especialistas afirmam que fizeram uma pesquisa



A frase acima soa, naturalmente, meio sem sentido. São, na verdade, duas frases bastante usadas nos meios de comunicação, escolas, universidades, etc. A depender do assunto, e havendo suspeita de que o público poderá questionar alguma afirmação, a melhor saída costuma ser anunciar o que se quer passar como verdade iniciando a frase com os quase sempre infalíveis “especialistas afirmam” ou “fizeram uma pesquisa”. Os efeitos são sempre excelentes e, não raro, por si mesmas as frases já conseguem convencer consumidores, eleitores, famílias, cidades e países inteiros. Isso porque todos tendemos a pensar que, se “especialistas afirmam”, e não sendo eu um especialista, logo eles estão certos e eu errado; ou ainda, se “fizeram uma pesquisa”, e não fazendo eu pesquisas, estão certos e eu errado.

Mas pode ser o caso de não se pensar assim; afinal, raramente chegamos a conhecer (mesmo e de verdade) os especialistas da frase; assim como, é claro, “fazer uma pesquisa” jamais será sinônimo de “encontrar uma verdade”. Seria muito saudável e cientificamente correto, acreditarmos um pouco mais em nossas intuições e um pouco menos naqueles que usam a ciência para garantir coisas que não podem ser comprovadas.

Em “Como mentir com estatística”, de Darrell Huff (clássico total dos anos 50 relançado aqui no Brasil em 2016) uma das ideias é justamente a de como é fácil enganar as pessoas usando adequadamente os números. Pesquisas famosas por “entortarem” os números são lá citadas, como por exemplo o muito citado e pouco conhecido Relatório Kinsey. Com profusão de exemplos e demonstração dos métodos, a impressão que se tem é a de que, caso sejam acrescentados números e estatísticas a coisas que “especialistas afirmam”, os resultados serão ainda melhores.

Mas, num mundo cada vez mais marcado pelo conflito entre interpretações, como escolher a melhor explicação para cada assunto? Acredito que um bom começo já seria cada um poder escolher a melhor resposta para cada problema. Apenas isso já seria sempre melhor que criar leis que impeçam as pessoas de terem suas próprias opiniões sobre muitos assuntos.

Mas, melhor que isso, coisa que seria perfeitamente possível, que todas as notícias baseadas em afirmações de especialistas e pesquisas, viessem acompanhadas de informações suficientes sobre como seus autores alcançaram seus resultados. Como exemplo, um caso digno das histórias do Lima Barreto, entre tantos outros que ilustram nosso cotidiano. Por razões legais é exigido, da parte dos fabricantes de cigarro, que sejam mostradas informações a respeito dos malefícios causados pelo tabagismo. O que é ótimo, considerando que tais malefícios são de fato existentes. Contudo, uma das informações obrigatórias é simplesmente inverificável: “existem no cigarro mais de 4.700 substâncias tóxicas”. Já se vão alguns anos que ofereço aos meus alunos um prêmio a quem conseguir obter a lista dessas 4.700 substâncias tóxicas. O melhor resultado até agora foi o obtido por uma aluna do curso de Direito, que descobriu a pesquisa original e respectivo erro na informação repassada ao Ministério da Saúde. De lá para cá, por mais cômico que seja este erro, ninguém mais se deu ao trabalho de confirmar aquilo que especialistas, pesquisas e números garantiam ser verdade. O que nos leva de novo ao início do texto, sobre até que ponto podemos confiar naquilo que especialistas e pesquisas afirmam sem que seja verdadeiramente possível sua verificação.

Fábio Viana Ribeiro é professor da Universidade Estadual de Maringá e apresentador do programa Bibliofonia, na Rádio UEM FM.

https://soundcloud.com/programabibliofonia

Sobre Fernando Razente

Atuante com comunicação e mídia, desempenhou-se na área administrativa do Jornal Noroeste e cursa História. É colunista, escritor de artigos de opinião e matérias jornalísticas.


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