quarta-feira , 26 junho 2019
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A convencionalidade e o intelectual



Por Fernando Razente

No início do mês de maio concluí (apenas a leitura) da obra “A Vida Intelectual” do antigo professor de filosofia moral no Institut Catholique de Paris, Antonin -Dalmace Sertillanges (1863-1948), pois a assimilação e apreensão no espírito de uma produção tão esplendida leva tempo, mas muito tempo, para concluir.

Porém, sem ser injusto com o autor, destaco uma (apenas!) de suas elucubrações, nas mais de 200 páginas, que mais tocou em meu coração. Ela fala a respeito da arte de escrever e sua análise é um estimulante ao escritor consagrado à verdade em tempos de politicamente correto e comercialização
da escrita.

Para aqueles que me conhecem, pode até soar óbvio minha queda por esse ponto em específico de todo o livro, mas o que Sertillanges faz é: elucidar com santa eloquência, o perigo daquilo que sempre temi, seja quando tenho uma caneta em mãos ou um teclado diante de mim – isto é, a convencionalidade. Quero dizer que custa muito caro não ser convencional, e isso pesa na hora de escrever, mas toda glória tem um preço.

No capítulo 8, “O trabalho criador”, no tópico 1. ESCREVER, o autor reflete sobre a convencionalidade. Convencionalidade na escrita, segundo Sertillanges, é a morte da originalidade – a virtude motriz e sui generis do trabalhador intelectual. Convencionalidade na escrita é “Escrever, por um lado, e por outro, viver sua vida espontânea” agindo como um falsário, negando suas raízes religiosas, em prol da ocasião e do público.

A convencionalidade é abjeta, pois é escrava das circunstâncias, é um “discurso [escrito] de ocasião” prostituindo a santa vocação intelectual. É deixar a situação momentânea interpor-se entre a verdade que fala no interior do intelectual e a tarefa de expô-la sem rodeios e/ou floreios [esconder o que tem por motivos covardes; ocasionais; financeiros].

O discurso escrito deve corresponder à verdade da vida. Aquilo que creio, escrevo, e aquilo que creio é pelo que vivo. Portanto, ser convencional é, em última instância, ser infiel as próprias crenças. Ao escrever “não corteje a moda”, aconselhou Sertillanges.

O contrário da convencionalidade é a sinceridade simples. “Olha no teu coração e escreve”, citando Sidney. “Quem escreve assim” com franqueza e amor a verdade, sem vender-se aos joguetes das circunstâncias, escreveu Sertillanges “fala na verdade para toda a humanidade.”

Todos os escritores, verdadeiramente grandes, foram e serão, os originais. Quem escreve, vendendo a verdade que crê, na ocasião, venderá até a si mesmo quando outra ocasião, mais apelativa, pedir. O intelectual se mostra um verdadeiro intelectual diante da tentação da convencionalidade, bem como Jó que só pôde mostrar-se essencialmente fiel ao Verdadeiro, na tentação na ocasião.

Sobre Fernando Razente

Atuante com comunicação e mídia, desempenhou-se na área administrativa do Jornal Noroeste e cursa História. É colunista, escritor de artigos de opinião e matérias jornalísticas. Atualmente é editor chefe do Portal Mandaguaçu.


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